quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O "MARTÍRIO" DO LINHO. PARTE UM.

         
           Para ser exibido no próximo sábado, dia 24, na 1ª Feira do Linho que vai decorrer na freguesia vizinha de São Salvador da Torre nas imediações da sede da Junta de Freguesia e Igreja local, conforme o programa aqui divulgado anteriormente,  está a decorrer em registo de vídeo, a reconstituição de todas as fases da cultura do linho desde a semente até à confecção do tecido que dele deriva.

            O trabalho é realizado pela Drª Joana Barros que superintende nas actividades de ocupação dos tempos livres e de lazer dos idosos previsto no programa das actividades da Câmara Municipal de Viana do Castelo, tendo como colaboradora a Drª Catarina Vale.


            A fim de conferir a maior autenticidade e rigor na reconstituição histórica de uma actividade praticamente extinta neste meio há cerca de sessenta anos, houve a preocupação de seleccionar pessoas que trabalharam na cultura do linho, nas diversas fases do seu tratamento até se transformar no novelo de fio e chegar ao tear onde se criavam os panos do maravilhoso tecido.

            Juntas as roupas próprias da época e os variados utensílios e instrumentos adequados, as antigas lavradeiras revisitaram o passado em cenários naturais, volteando a terra com o sulco do arado e alisando os terrenos com os dentes da grade, lançando à terra a semente, recolhendo o esguio caule em molhos cuidadosamente sobrepostos atrás de pessoa que o recolhe, sendo depois transportado em carro de bois para ser ripado e separar a semente da planta numa prancha de madeira a que se chamava ripa ou ripe com cortes na vertical formando os dentes da ripe colocada entre a roda e o madeiro do carro ou "chadeiro do carro", onde era batido com força para separar a baganha da planta.

           Na  fase seguinte formavam-se molhos e de novo no carro de bois seguia para o Rio Lima, onde ficava submerso durante dez dias coberto com areia e pedras, para fazer o enlagar. Findo este trabalho, volta no carro para ser corado ou secar, cuidadosamente estendido ao sol por um período de duas semanas para ficar macio suficientemente macio e possibilitar a separação da parte dura da mole. Era, seguidamente malhado, depois de ter sido alinhado em carreiros com o fim de o tornar quebradiço e tanto quanto possível, macio.

           A fase seguinte era a do "martírio" pois era sujeito ao esmagamento numa espécie de tambor de madeira movido por acção da água, onde era introduzido em manadas sucessivas pelo operador do engenho que, chegado o momento certo, o retirava e já totalmente desfiado e prensado formando mantas de fibra branca cheias de arestas. Usava-se chamar a este fase "fazer o linho".

          As mantas eram depois penduradas e desfeitas em pequenas porções que se designavam por manadas que erasm acomodadas em cestos de verga para serem espadeladas. Para isso, usava-se o cortiço e uma espadela. O primeiro era uma peça de cerca de um metro de altura da casca do sobreiro, fechada em  forma cilíndrica e a espadela uma peça de madeira de com a forma de um triângulo hexagonal, com uma abertura na parte mais estreita em forma de asa para melhor se manejar. A parte inferior era feita em forma de lâmina afiada com um vidro tão cortante como o cutelo dum magarefe.

          A fase seguinte era a espadelada, que se compunha de três fases:; esbouçar, para se extrair a parte mais grosseira da manada, os tumentos bardascos, que iam caindo com o bater ritmado da espadela, resultando desta fase o linho limpo e os tumentos de acolher. Curiosa a definição de "recolher" que compreendia a junção de várias manadas numa só até determinada medida a caber numa mão, que, com 24 porções completavam um afuzal de fibra branca e sedosa e, depois, atado em feixes.

          Está ainda longe de terminar a saga turbulenta e canseirosa do linho que prossegue, agora, com o pentear que consiste em fazer passa entre os dentes afiados de um pente a manda e, o que neles ficava preso faziam-se os manelos em pequenos rolos feitas da estopa assim extraída. O pente era formado por um pedaço de madeira com um número indeterminado de pregos com o bico virado para cima exigindo muita perícia para não deixar que os dedos fossem atingidos no movimento do pentear. Para se apurar mas as fibras longas do linho era necessário arrestelar. Era de uso habitual o restelo, um rectângulo de madeira com pregos de tamanho médio onde era passado o linho para obter melhor qualidade.





          A parte final desta fase era o assedar, quando o linho ficava limpo de qualquer impureza e se faziam as estrigas lindas e douradas sendo a partir delas que se obtinham as mais belas peças nas teias (ou baral).
   
          Era comum ainda usar-se o sedeiro, um utensílio semelhante ao restelo mas com mais e mais juntos pregos e de menor tamanho.


(CONTINUA)

(Nota do autor: elementos colhidos do trabalho da Dª Conceição, de Vila Mou, que integra o grupo dos idosos que participa no Programa acima referido)


         





        

        

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