sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O "MARTÍRIO" DO LINHO, PARTE DOIS.





            Terminada a fase da preparação do linho desde a sementeira até se obter a estriga, é chegado o momento de se iniciar o processo que conduz à obtenção das peças do pano tão rico e estimado.

       
                Começa-se, então, por fiar a estriga dourada e, para esse efeito são necessários a roca e o fuso; e, também, muito treino e destreza no manejo da roca que roda entre os dedos polegar, indicador e anelar, puxando o fio da estriga colocada no topo da roca. A roca é feita de rabo e chuço, de madeira, às vezes trabalhada, encimada por uma cornija em osso ou marfim onde se prendia uma correia fina e, na ponta, um pequeno osso trabalhado, em bico, o espicho, que servia para segurar a estriga espetando-o na última volta da correia ali colocada. O fuso, de madeira confeccionada e encimado na ponta por um ferrete metálico estriado para torcer o fio, no seu movimento rotativo enrolava o fio na base do fuso, ligeiramente mais grossa para dar balanço do movimento. Consoante a qualidade do linho e a arte da fiandeira, o fio formava-se mais grosso ou mais fino, por acção dos dedos molhados na saliva no fio que se formava a partir da ponta da roca.


          
               A fase seguinte é a do ensarilhar que consiste em passar para o sarilho 6 ou 7 maçarocas para fazer uma meada. O sarilho difere da dobadoura porque os seus quatro braços em cruz, tendo na ponta de cada um deles um bocado de madeira redondo para segurar o fio, estão colocados na vertical.

             Passa-se, de seguida, à cozedura em potes de ferro fundido em tripé onde eram colocadas as meadas, cobertas de água e com sabão rosa adicionado e cinza das lareiras e remexido de tempos a tempos até que ficassem todas por igual, numa barrela de cinza e sabão. Finda a cozedura, seguiam para o rio onde eram batidas em pedra de lavadouro onde perdiam as últimas arestas e se tornavam mais macias. Seguidamente, eram postas a corar sobre a relva, bem expostas ao sol durante várias horas e, logo depois de bem coradas, sujeitavam-nas a nova lavagem e esfrega, saindo daí o linho branco ou fosco. Por último, eram pendurados em varas bem esticadas e os fios cuidadosamente separados.






            Vamos agora dobar, que consiste em fazer das meadas novelos, introduzindo-as nos braços da dobadoura e, tomando a ponta do fio da meada, a alfaia vai rodando e desenrolando o fio que vai formar o novelo até atingir um tamanho de uma laranja normal..

            Estamos a chegar ao fim desta saga fantástica que é a do linho e, por isso, é tempo de encher canelas, uma pequena secção de cana a que se dá o nome de canela e são feitas pelo caneleiro, a qual, depois de receber o fio é colocada na lançadeira.

             É o momento de chegar ao tear onde a lançadeira, passando pelo meio da cruz formada no ordume através das premedeiras accionados com os pés da tecedeira, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, tric-trac, tric-trac-tric-trac, fio a fio nasce o pano final.


            Esta é uma história da vida atribulada de um bem da natureza que o homem  aprendeu a aproveitar ao longo de séculos e séculos. Não é um estudo rigoroso, muito longe disso, mas regista o cultivo desta espécie herbácea , que foi prática corrente da lavoura de subsistência desta região, recolhida junto daqueles que conheceram na prática o processo da sua cultura e da sua transformação em peças lindíssimas de alto valor, por eles fabricadas e que ainda preservam com muito amor e desvelo.

         
                  Um trabalho mais elaborado teria abordado outros aspectos ligados ao ciclo incrível da transformação do linho até chegar ao tear, como o dos serões familiares onde se fiava à luz da candeia, os enxovais preparados para o casamento, as suas aplicações aos actos litúrgicos, os namoros e as estórias que se criavam à volta do trabalho das mais jovens, as variadíssimas alfaias usadas e a criatividade dos seus construtores, os cantares alusivos e os casamentos em dosseis de linho. Porém, o alcance desta abordagem singela e quiçá incompleta, cinge-se ao objectivo de falar do tema central da 1ª FEIRA DO LINHO que vai decorrer em São Salvador da Torre, já no próximo sábado, dia 24. Neste evento, que decorre do projecto de angariação de fundos para ajudar a custear o Centro Social e Paroquial Riba Lima, vai ser exibido um filme sobre a actividade aqui tratada, interpretado por pessoas que trabalharam na cultura e tratamento do linho há décadas atrás, vestindo as mesmas roupas e usando as mesmas alfaias de então e registadas nos cenários naturais onde era exercida.

             
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                   Ressalvo uma vez mais, que muitos dos dados aqui mencionados foram colhidos de um trabalho de pesquisa e de experiência pessoal  da senhora Dª Conceição Mendes, da freguesia vizinha de Vila Mou, que mantive na sua grande parte como consta do texto que me cedeu, louvando o mérito do seu trabalho e os pormenores com que o executou.




                                                                            FIM

       

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