sábado, 13 de fevereiro de 2016

CHOVE CHUVA, CHOVE SEM PARAR.

                  
               Um mortal deita-se para dormir e chove, por enquanto, lá fora; eu não disse nada mas pensei -continua a chover. Às tantas, acorda (há necessidades...) e ouve o cantar da chuva na persiana da janela (continua a chover, ouve-se, nem precisa ver). Levanta-se de manhã, mete-se debaixo do chuveiro e sente um bátega de água a cair sobre a cabeça (e na carteira, está a pensar, pois é água da rede pública que se paga-se com ou sem língua de palmo); de graça, é a que ele continua a ouvir (depois de fechar a torneira) a cantar no telhado e deduz ( esta mania que o cidadão tem de fazer deduções, deduz muito um cidadão) que a chuva não dormiu (ora, dorme lá, a chuva) e, de novo, repete a dedução: -está a chover! (Bravo!). E assim sucessivamente. 



                Estive de manhã no Estádio dr. José de Matos do idoso -118 aninhos, velhinho!-  Sport Clube Vianense (ainda Estádio dr. José de Matos, do SC Vianense, velho muito velhinho e, para mais,  pobrezinho, coitadinho, à beira de passar a ser um condomínio privado ou superfície comercial lucrativa). Gaivotas, bastantes, no relvado roto de veste de indigente, catando vermes do cadáver a decompor-se. Andei por ali há um ror de anos (andei? Não, corri...) enterrado algumas vezes na lama do piso de saibro lamacento. No lado norte, o relvado sintético do campo de treino, alagado (também em Viana chove, ora essa, que "Maria vai com as outras" e Viana é terra de Marias, com ou sem traje "à minhota". Ah, continua a chover (noto pela água que tenho nos sapatos e por sentir os pés húmidos; de pouco serve ter o guarda chuva aberto). É fácil distinguir o Luís Pedro: tem na camisola estampado o número 23, não merece a pena memorizá-lo, é o mais alto elemento da equipa, o meu neto rapaz. Faz movimentos (ainda) de aquecimento com a restante equipa (a chuva, fria, encharca-lhe a camisola azul, o cabelo mesmo curto cai-lhe para a testa). Os miúdos parecem patinhos a chapinhar numa banheira de brincar. Chegam os do Sporting (a chuva já cá estava, posso garanti-lo) e principia o divertimento. Atacais vós, defendemos nós, agora seguimos nós para o ataque, recuais vós para a defesa. À molhada, molhados. Caem, levantam-se. A seguir, levantam-se e voltam a cair. O Luís Pedro, joga atrás, é beck, desfaz uma incursão pela direita do fedelho leão, bate para a frente nas costas da defesa contrária, um reguila avançado da sua equipa "armado" em Messi leva a bola até perto da baliza contrária, o remate sai de encontro às pernas de um defesa, entrega-se redonda para um seu colega e...1-0 à boca da baliza. Viva, viva o Vianense, viva! Fiz frente à chuva até ao intervalo (avô gosta de cumprir promessas feitas aos netos). Com os pés molhados e as calças ensopadas, saí a vencer (pelo Luís Pedro). Vou saber como terminou, depois, com a certeza de que o triunfo ou o desaire, será sempre ensopado. Chove mais, lembrem-se.


             De automóvel pode-se chegar ao rio Lima sem recear ficar sem uma linha enxuta da roupa que veste. Fui lá, depois do almoço (dentro do carro, nem seria preciso escrever, pois detesto tomar banho vestido e sapatos secos, não dá jeito nenhum limpar com a toalha o fato molhado) e, outros mais faziam o mesmo que eu (vão ali ver a massa líquida incontida da corrente nos limites das margens e os troncos que ela arrasta, penso eu e estou certo do que digo). Rio cheio, a transbordar, um barco de proa à vista quase submerso e o Caninhas a devolver ao rio a água que o água-arriba lhe tirou vinda das nuvens. Faz isto todos os dias, o Caninhas, e pagam-lhe zero euros que ele, agora, faz apenas o que quer e gosta de fazer. Registo com a Canon através da janela aberta com os pingos a perturbar a lente, e a mim, o estado em que a chuva deixou os terrenos alagadiços do Parque Verde. Uma garça aproveita e trata de alimentar-se, pouco impressionada com o lençol natural que a chuva criou. É branca, não é águia, disso eu tenho a certeza, essas são vermelhas ou parecem...


            Tanta, tanta é a chuva que já cansa, ainda mais que os impostos que nos cobram para equilibrar a balança, dizem eles. Balança de braços viciados, porque sempre inclina um prato para o mesmo lado (E não há chuva bastante que os afogue num instante! Todos). Estaríamos seguros de que jamais se lembrariam de criar um imposto para pagarmos a água que o céu nos traz de graça. - Abrenúncio, t'arrenego chifrudo!







 

Fotos: doLethes
Remígio Costa

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