sexta-feira, 11 de outubro de 2013

AS VESPAS VELUTINAS DAS PENSÕES DOS REFORMADOS VELHOS.

         Uma praga muito mais malévola e voraz do que a vespa asiática para as abelhas e o mel por elas produzido, há muito mais tempo a expandir-se e a proliferar nos lugares de topo das colmeias do poder público em Portugal, é a de certa classe política e outras espécies indígenas afins, as quais, espaldadas nas leis que eles próprios engendraram e fizeram aprovar, atacam sem dó nem piedade as verbas do Orçamento do Estado provenientes dos impostos que alguns portugueses (ainda)  pagam e as que resultam do esbulho a que vêm a ser duramente submetidas as pensões e reformas dos velhos, para encherem o saco sem fundo da sua ganância e avidez imoral.

          Hoje, volto à crónica habitual do jornalista do Jornal de Notícias (JN) Jorge Fiel, o qual no seu estilo desassombrado e claro, trata um exemplo paradigmático de uma personagem com relevância na vida pública portuguesa e mesmo europeia, que recebeu pensão de sobrevivência por falecimento da sua mulher e, até agora, não se sabe se o valor que recebeu era suficiente para resgatar a vergonha que não tem.




"A pensão do sobrevivente Constâncio"



"O Zé António Saraiva passou a ter Constâncio na conta de pessoa de caráter duvidoso mal soube que ele andava a espalhar por todos os cantos da Lisboa política que os ataques que lhe faziam no "Expresso" eram tão-só uma pérfida vingança do seu diretor por ele o ter derrotado em partidas de ténis e de xadrez, disputadas quando ambos se encontraram nas férias.
Não conheço Vítor Constâncio ao ponto de poder emitir uma opinião abalizada sobre o seu caráter. Todavia, creio estar na posse de informação suficiente para o caracterizar como um sobrevivente.
Constâncio, que amanhã deixa a casa dos sexagenários (ficam desde já aqui os meus parabéns antecipados), sobreviveu a três anos de desastrada e cinzenta liderança do PS, cargo em que sucedeu a Mário Soares e abandonou em 1989, na sequência da sua impotência em arranjar um candidato às eleições para a Câmara de Lisboa - e após ter sido derrotado nas legislativas por Cavaco, a quem proporcionou uma inédita maioria absoluta.
Só um sobrevivente como Constâncio, depois de sair da política pela porta das traseiras, poderia construir uma brilhante carreira académica, onde cometeu a proeza de chegar a catedrático sem ter concluído o doutoramento, a par de um lucrativo périplo pelas empresas, como administrador da EDP e BPI.
Só um sobrevivente lograria, no dealbar do novo século, regressar ao cargo de governador do Banco de Portugal, que ocupou durante dez anos auferindo o bonito salário mensal de 17 372 euros, um pouco mais do que o dobro do vencimento do presidente da Reserva Federal norte-americana.
Só um sobrevivente conseguiria ser promovido a vice-presidente do Banco Central Europeu, com um salário anual de 320 mil euros e o pelouro da supervisão bancária, depois de ter sido incapaz de detetar as fraudes, aldrabices e patifarias do BPN e Banco Privado que custaram mais de cinco mil milhões de euros aos contribuintes - e de fazer orelhas moucas aos alertas feitos em devido tempo pela Imprensa.
Constâncio também sobreviveu à sua mulher, Maria José, que nos deixou a 29 de agosto. E apesar de ganhar 26 724 euros por mês, o viúvo Vítor Manuel Ribeiro Constâncio tem automaticamente direito a uma pensão de sobrevivência no valor de 2400 euros/mês, o equivalente a 60% da pensão da falecida.
Não sei se naquele momento de dor, no meio da papelada que a agência funerária lhe passou para as mãos - onde constam os impressos solicitando o subsídio de funeral e a pensão de sobrevivência - , o viúvo Constâncio assinou este último.
Sei que ele não precisa da pensão de sobrevivência para sobreviver. Sei ainda que para sobrevivermos temos de acabar com a possibilidade de ele - bem como todas as pessoas que ganham num mês o que 90% dos portugueses não ganham num ano - receber uma pensão de sobrevivência. Sei também que seria avisado perceber primeiro o teor das alterações ao regime das pensões de sobrevivência antes de armar um banzé e ameaçar recorrer a essa nova espécie de filial de Deus na Terra que dá pelo nome de Tribunal Constitucional."


1 comentário:

  1. NIVELAR POR BAIXO
    Jorge Fiel, exibe o que há de mais mesquinho no cidadão português: a inveja e a pequenez. O homenzinho, armado em jornalista de sargeta, não entende que, quando uma pessoa recebe o que por Lei tem direito mesmo que dele não precise - neste caso a pensão de viuvez e subsídio por morte - está a exercer o direito de cidadania. É que, ser rico não lhe retira direitos, da mesma forma que ser pobre não isenta de obrigações.
    É difícil de entender? sim, para Jorges é mesmo difícil!

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