quinta-feira, 3 de outubro de 2013

ALCUNHAS: POUCOS ESCAPAM A ELAS.






        OS “ZEITONAS DO AVÔ”


        Andava à procura de alguém com memória do passado ainda saudável , com o intuito de conhecer a origem da alcunha de uma figura popular da nossa comunidade lanhesense.  A pessoa que me indicaram para me ajudar neste propósito, já tinha apagado do escaninho das arrumações das coisas passadas tão mesquinho conteúdo. Porém, não foi em vão que o abordei, porque, logo outra, relacionada com a mesma pessoa e com um dos seus irmãos, limpa do pó dos anos passados, me deu a conhecer.
       Então, aconteceu assim: o avô curtia em duas pias de pedra arrumadas ao lado da salgadeira na loja das traseiras da mercearia onde eram vendidas, com a luz entrar num fio ténue pela fresta romana aberta na parede, as azeitonas pretas e lisas bem temperadas de sal e polpa bem nutrida e sã. A determinada altura deu-se conta o perspicaz ancião de que a quantidade das sedutoras e apetitosas azeitonas diminuía a ritmo muito mais acelerado daquele que as vendas decorriam no balcão da loja. Desconfiado de que alguém andava a meter, à sucapa, as mãos nas graníticas talhas para lhe comer as azeitonas, o defraudado que as curtia com tanto esmero e gosto congeminou um ardiloso estratagema a fim de deslindar o enigma.

      Retirou as azeitonas das pias substituindo-as por “matéria orgânica” de animais domésticos, recolhida ali mesmo nas cortes ao lado, sem ter dado conhecimento a ninguém ainda que seu próximo e ficou atento ao que pudesse vir a acontecer. Algum tempo passado, surgiram, vindos de dentro, de cabeça baixa, dois dos seus netos, ainda em idade precoce, com as mãos e braços cobertas de um líquido pastoso e escuro que ia dos dedos até aos cotovelos, de cheiro nauseabundo, com ar de quem tinha sido surpreendido em flagrante em  acto pecaminoso passível de ser submetido a veredicto confessional para alcançar  perdão.

O episódio, como sempre acontece nas pequenas urbes rurais, onde ninguém escapa ao escrutínio público das peripécias  mais insólitas e originais mesmo que elas se passem na intimidade das próprias telhas, passou de boca em boca como o lume na estopa e não tardou que os dois rapazes passassem, daí em diante, a ser tratados pelos seus companheiros de infância como os “zeitonas do avô”.

Criar alcunhas e muitas vezes usá-las em substituição do nome adquirido do baptismo faz parte de uma tradição do nosso quotidiano vivencial sendo raros os que as não têm. Nem por isso algumas são bem aceites pelos alcunhados.  Outras, menos expostas ao ridículo e desfrute popular ou conotadas com episódios ocorridos que se querem esquecidos, acabam por  vincular de tal forma os visados que se sobrepõem ao nome constante do registo legal perdurando para além da vida do visado através da família a que pertenceu.



Lanheses, 2013.10.03

Remígio Costa.

2 comentários:

  1. Muito bonita historia, Remigio faz-me lembrar, como a minha mae adoptiva curtia
    tambem as azeitonas em talhas de barra one dai iamos comendo todo ano, algumas estavam "meladas, mas com boroa de qinze dias tambem passavam...
    Um abraco-Manuel horacio Lima De Jesus

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  2. Manuel Horácio:

    E que bem que elas sabiam!

    Tenho pena da geração dos MacDonal's...

    Abraço.

    Remígio.

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