terça-feira, 15 de maio de 2012

CONTO SEM PONTO.


        ALTO LÁ E PÁRA O BAILE!

      No tempo em que o teatro amador constituía a mais apreciada  actividade cultural e recreativa da povoação onde os factos aconteceram, o  comandante da força do posto da guarda irrompeu a custo pelo estreito corredor central das cadeiras apinhadas de gente que assistia no salão da Casa do Povo à estreia da peça “Os Condes de Alcoutim”, da autoria do padre jesuíta Luiz Gonzaga Cabral, uma dramalhão histórico que decorre num cenário de Idade Média  onde não faltam traições ao Rei legítimo ausente do trono em cruzadas longínquas , heróis e vilões e amores impossíveis, intrigas e lutas sem fim,  que ali estava a ser representado pelo Grupo Cénico amador  da localidade.  Chegando perto do palco, dando um jeito à espingarda Mauser do espólio da I Grande Guerra que transportava ao ombro em bandoleira , dirigindo-se aos  actores naquele momento em cena  ordenou, numa voz de falsete e pose de autoritarismo presunçoso de quem está habituado a ser obedecido sem contestação

      - Alto lá e pára o baile!

     A ordem, por inopinada e vinda de uma autoridade cujas prática quotidiana no exercício das suas funções lhe granjeara fama de excessivo zelo e tomada de decisões muito acima das competências que a lei lhe atribuía, causou impacto imediato nos intérpretes que estavam no palco, os quais, interromperam os diálogos ante o desespero do ponto que, sem se ter apercebido do que se passava atrás dele, encolhido que se encontrava na reduzida caixa aberta ao nível do soalho repetia e gesticulava, aflito, as "deixas" na tentativa de retomar o curso normal do espectáculo.

      - Alto lá e pára o baile!

     A reacção que se seguiu foi tudo o que o cabo  graduado em comandante não contava. Do palco, alguém afrontava o intruso , ripostando:

     - Baile?  Que baile? O senhor chama a isto baile?

     Era o pajem da peça, uma figura ainda jovem mas já de razoável estatura com vestimenta  “à Robin dos Bosques”, de arco e flechas de madeira artesanais enfiadas na aljava que transportava presa às costas, quem tomava a iniciativa em afrontar e contestar a abrupta e despropositada interrupção do concorrido acontecimento.

       - Então, um  baile?, prosseguiu. Com que autoridade intervém o senhor aqui, neste espaço?. Virando-se, logo a seguir, para o presidente da Instituição onde decorria  o espectáculo, ali presente na primeira fila, ele também ainda mal refeito da inusitada e surpreendente atitude da autoridade.
       - Senhor presidente, interpelou-o “Robin dos  Bosques”, quem manda aqui dentro?  É este senhor?

          Na salão começaram a ouvir-se ruídos ameaçadores e uma voz ergueu-se acima de confusão que começava a instalar-se, num grito de velada ameaça:

          -Apaguem a luz! 

         Logo, mais vozes se juntaram à anterior e era já um ribombar de trovoada depois do relâmpago que anunciava a borrasca latente e incontrolável.
       
         Apercebendo-se da insistente degradação do ambiente o invasor recuou na intenção  e na estratégia que o movera, e, a custo, com a  canhota levantada à altura dos ombros segura  nos dois braços, conseguiu abrir caminho  até à saída agrupando a força de vários praças que para ali destacara. Havia-se formado, no exterior, uma pequena multidão que não tinha conseguido obter bilhetes de ingresso, mesmo recorrendo ao mercado negro que se verificava muitas vezes sempre que o grupo cénico amador ali estreava um espectáculo, e, o estado geral de ânimo não era o mais propício ao apaziguamento em caso de qualquer incidente; considerando a insuficiência de efectivos no caso de deterioração  da ordem pública, foram os militares posicionar-se estrategicamente  a alguns metros de distância sem, contudo, dar mostras de querer  abandonar o local.

         Para melhor compreensão dos factos é necessário referir que o objecto da intervenção da força policial era o de fiscalizar se na sala  estavam  crianças mesmo que acompanhadas dos seus pais ou familiares. Executor implacável da letra da lei até ao ponto de aplicar uma multa a uma familiar muito próxima  a quem surpreendera  em flagrante a sacudir o tapete da janela do posto da guarda para a rua, era imperioso mostrar a sua inabalável exemplaridade profissional fossem quais fossem as situações e o momento de o fazer.  Abril era ainda sonho guardado e abafado pelo medo nesse tempo e os tiranetes com poder mesmo que de relativa dimensão  afadigavam-se em mostrar serviço, exorbitando com empenho  canino nas acções que desenvolviam  visando incutir  nos mais humildes  uma obediência cega e incondicional . Escolheu mal o momento, como veio a verificar-se.

       O espectáculo havia de chegar ao fim já bastante tempo  depois da meia-noite e, como habitualmente, os intérpretes amadores do grupo de teatro que o levara à cena comentavam na forma habitual as peripécias que o envolveram, comendo bolachas Maria e bebendo um dedal de vinho do Porto, como era tradição.  Chegou, entretanto, ao conhecimento do “Robin dos Bosques” que a força da ordem continuava perto da entrada principal com o intuito de o conduzir ao posto próximo, dentro dos melhores procedimentos vigentes à altura dos acontecimentos, onde, como constava e era garantido acontecer, quem lá entrasse, homem ou mulher, novo ou idoso, era interrogado durante horas, ameaçado, agredido quando calhava, sujeito a julgamento e veredicto condenatório que forçava o(a) infeliz a passar umas horas, com menos sorte até uma noite, atrás das grades da porta da enxovia onde nem janela existia para poder ver o “sol aos quadradinhos”.

     Ainda desta vez o esbirro viu gorada a sua ânsia persecutória de vingança contra o afrontador da sua intocável autoridade. Com o auxílio dos colegas que foram saindo naturalmente pela porta principal, o improvisado Robin Wood, interpretando à letra as aventuras que o salvaram sempre das mãos do vilão, já sem o disfarce da vestimenta que usara no cena,  saiu à socapa pela porta dos fundos e escapuliu-se dali nas barbas da patrulha para ir gozar na sua cama o descanso retemperador das emoções vividas nessa noite.

    No tempo em que ainda por cá andou até atingir o limite de idade imposto pelo regulamento, nunca mais voltaram a estar frente a frente os dois principais protagonistas do episódio aqui descrito.

    É de acreditar que nem um nem outro alguma vez se tivesse lamentado por isso não se ter verificado.










Sem comentários:

Enviar um comentário