sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ALFAIATE: A PROFISSÃO EXTINTA EM LANHESES


Old tailor workshop with sewing machine, fashion dummy and cloth

  ( Foto internet  )

    ALFAIATE POR MEDIDA, ARTE EXTINTA EM LANHESES
  
      Há já alguns anos que se extinguiu em Lanheses a profissão de alfaiate.  Atualmente, não conheço nem tenho notícia de que alguém natural da freguesia tendo aprendido a arte a exerça em qualquer outro lado em Portugal ou no estrangeiro.

     Desde o princípio dos anos quarenta que guardo memorizadas algumas recordações referentes aos que nesse tempo faziam fatos por medida e exerciam a arte como profissão única. O primeiro que conheci e de quem guardei imagens com nitidez de pormenor, é o meu pai, Artur, de seu nome.

     Na sala grande da casa de habitação do piso superior, uma mesa larga de linhas retangulares permitia ainda assim fácil circulação à sua volta. Brincava ao redor dela lançando no ar aviões de papel que o meu pai fazia para me entreter sem o perturbar enquanto trabalhava. Em cima, três metros de fazenda bem estendida, moldes, giz branco e fino de formato redondo, fita métrica pendurada à volta do pescoço e uma tesoura enorme manejada com mão firme a recortar sem desvio de milímetro pelas linhas traçadas. Preparam-se as entretelas, forros e chumaços para equilibrar o casaco nos ombros. Juntas as peças no formato da roupa a executar, seguras por pontos largos feitos à agulha com linha branca, era dada a primeira prova antes de passar à Singer junto à janela. A seguir, trrrr, trrrr, trrr, tangida pelo pedal iam ficando ligados pela agulha frenética da máquina, peça por peça, os recortes da fazenda dando forma à obra final, e pode o cliente a seguir fazer a segunda prova. Veste, ajusta, corrige e remarca com o giz, descose se for necessário, segura com dois alfinetes, e está concluído o trabalho para os acabamentos de pormenor: bainhas cerzidas com a agulha e dedal no dedo, abertura das casas e fixação de botões. A tarefa cabia ao ajudante aprendiz, João Franco, que viria a entrar para a família pelo casamento com a irmã da minha mãe, de nome Olívia. Mais tarde, porque o meu pai encetou um rumo diferente à vida e deixou definitivamente a profissão, foi o tio João que assumiu a alfaiataria com porta aberta para a estrada em macadame, no rés-do-chão.

       Nunca soube, ou apagou-se no escaninho das memórias adormecidas se alguma vez o ouvi contar a alguém, como optou e com quem aprendeu o meu progenitor a profissão de alfaiate. Dos meus avós não terá sido porque o avô materno não tinha esse ofício e faleceu novo em Espanha para onde emigrara em acidente de trabalho que desconheço qual fosse, e desde que tomei consciência de quem era e o que fazia, o paterno explorava uma loja de mercearia na casa onde residia. (1)

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´Foto internet

       Antes de ter emigrado para o Brasil, ainda jovem e no estado de solteiro, o meu pai e o irmão mais velho, Moisés, como ele alfaiate, abriram em sociedade no Largo da Feira, atual Largo Capitão Gaspar de Castro, uma alfaiataria. Não deu certo porque à época eram escassos os clientes com posses em moeda para vestirem fatos por medida, e já bem especializados no jogo das damas com que iludiam o tédio das horas sem trabalho, decidiram tentar no Rio de Janeiro a compensação da arte que exerciam, com fama de artistas de gabarito a fazer fé nos testemunhos dos seus contemporâneos de que mais tarde viria a ter conhecimento. Regressaram alguns anos depois, não sei quantos, e com o casamento projetado e consumado sem muita delonga, nasceram as minhas duas primeiras irmãs e, comigo na lista de espera na terceira posição, voltou o meu pai com o irmão, pela segunda vez, a atravessar em trinta dias o Atlântico para chegar à terra de Santa Cruz. Contudo, as saudades apertaram a estadia e o adeus ao Rio, ao Corcovado no Pão de Açúcar e a Copacabana, tornar-se-ia definitivo.

 

        Ao tempo a que reporto a nomeação dos primeiros alfaiates que conheci trabalhava no ofício Joaquim Vacondeus Palma Marinho, ou Joaquim Curjães no tratamento comum, com oficina no Lugar do Outeiro; mais tarde, passou a residir com a família e a trabalhar no Lugar da Corredoura, na casa onde mora atualmente o filho único,   José Amado Palma Marinho, o Zé Amado, o qual, tendo o pai falecido e usando de alguma prática adquirida na colaboração dada ao seu progenitor, foi assegurando após o falecimento do pai por mais algum tempo a manutenção da modesta oficina aceitando esporádicos serviços de arranjos de vestuário, o que presentemente, ao que presumo, já não faz.

        No Lugar do Barreiro trabalhou durante alguns anos, por conta própria, José Costa Vítor (*), desconhecendo eu com quem e onde aprendeu o ofício, e apenas o mais velho dos seus vários descendentes, o Eugénio, o ajudava e seguiu algum tempo com ele a aprendizagem, não tendo porém prosseguido o mester por ter enveredado pela ação política onde atualmente ainda milita.

 Nascidos em Lanheses e que se fizeram alfaiates e exerceram atividade profissional de relevo noutros ambientes, nomeio três: Joaquim Rebouço ou Joaquim Paulinho, Joaquim Palma Nunes Franco e Adriano Palma Fernandes. O primeiro, já falecido há algum tempo, fixou-se em Almada e fundou alfaiataria com vasta clientela entre destacadas personalidades da vida social e político da grande Lisboa, asseverado pelo amigo Joaquim Nunes Franco, que com ele conviveu durante os anos de permanência na capital. O Joaquim, enquanto profissional de alfaiataria e encarregado geral em atelier de confeção de roupas por medida, frequentou cursos especializados de estilismo antes de emigrar para os Estados Unidos onde permaneceu largo período da vida, regressando há já alguns anos à terra natal fixando residência em Viana do Castelo na situação de reformado. O Adriano Palma, que os amigos tratavam por Diamantino Viseu por ser grande apreciador das touradas e admirador do famoso toureiro, foi também ele emigrante-alfaiate nos Estados Unidos, faleceu em janeiro de 2014 sem ter feito carreira em Lanheses.


  
      
    Agitando num sopro mais forçado as cinzas demoradas que me restam da evocação dos tempos idos nesta matéria, uma ténue brasa traz-me à relação dos nomeados o nome de António Silva, conhecido por António da Palmira, o qual teria tido a profissão de alfaiate antes de fixar residência nesta freguesia no Lugar do Outeiro, porque o que melhor recordo é a casa de petiscos e comidas que possuiu e explorava no Largo da Feira onde hoje está a Ourivesaria de Lanheses. Já depois de ter alinhavado este texto apurei que, antes de enveredar pelo ramo do comércio, o António Silva exerceu, efetivamente, na sua residência a profissão de alfaiate por conta própria durante alguns anos.
     Através do José Amado Palma Marinho, soube ainda que Adriano Franco Fernandes, igualmente desta freguesia, foi aprendiz da arte na alfaiataria de Joaquim Curjães, tendo ido seguidamente para Lisboa onde trabalhou alguns anos chegando a contramestre, acabado mais tarde por emigrar para o Brasil onde viria a falecer. Apurei mais que, Manuel Rocha, antes de fixar residência em Lisboa onde trabalhou e se notabilizou como ciclista do Sporting Clube de Portugal, ao serviço de quem obteve o sexto lugar numa Volta a Portugtal em que a sua equipa saiu vencedora, trabalhou durante alguns anos na profissão antes de optar por outros rumos.
    
     Os alfaiatas tinham que concorrer já nesse tempo com a roupa de “pronto a vestir” vendida na feira quinzenal de Lanheses, que então decorria no Largo principal da freguesia, com a famosa casa “Cardoso da Saudade”, com sede em Braga. Os fatos estavam exposto num trailer amovível de grande dimensão onde era possível aos clientes escolher numa gama atraente e variada à medida, ajustada com preços muito rateados. A mudança de hábitos no vestir, a inovação no estilo, o desenvolvimento da indústria, o markting, a importação e a oferta intensa resultante da proliferação dos grandes armazéns que esmagaram os preços e a adesão em massa dos clientes beneficiando da melhoria substancial do poder de compra e da acessibilidade fácil, foram decisivos para a quase extinção dos alfaiates tradicionais, dando lugar ao aparecimento dos ateliers estilizados e a costureiros altamente credenciados no design e na originalidade da oferta.
      (*) Terá sido o seu pai, Mariano, que lhe ensinou o ofício de acordo com esclarecimento recebido de um seu descendente.
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((1) Tendo tomado conhecimento deste assunto, o meu primo Euclides Fernandes informou-me de ter ouvido a sua mãe e minha tia Lucinda Costa Lima, irmã mais nova do meu pai, dizer que o nosso avô Manuel Rodrigues da Costa, o “pai velho” como o tratávamos, exerceu a arte de alfaiate e foi ele quem a ensinou aos filhos, Artur e Moisés. Estiveram os três no Brasil e não apenas os dois filhos como escrevi na peça. Mais tarde e depois de deixar de exercer a profissão o meu avô abriu a mercearia na casa que ainda existe junto ao adro da igreja paroquial da freguesia, que manteve até perto do fim da vida.

Remígio Costa, 2017/fevereiro.


Fotos: em cima; à direita: Joaquim Nunes e esposa. Em baixo: José Amado.


    

2 comentários:

  1. Excelente discrição do trabalho de aifaiate...excelente reportagem. Parabéns Sr Remigio.

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