sábado, 20 de dezembro de 2014

NÃO HÁ MEL NA FEIRA DO MEL!

            

        Noutros tempos ainda não muito antigos, a última feira quinzenal antes do Natal que se realizava em Lanheses no Largo da Feira e que atualmente tem atribuído o nome do benemérito Capitão Gaspar de Castro,  era popularizada pela designação de "Feira do Mel", justamente porque ali acorriam os apicultores a vender o mel das colmeias próprias que abundavam nas encostas das courelas de muitos lavradores desta freguesia e de mais longe, como das localidades encrustadas nas vertentes da Serra d'Arga, São Lourenço da Montaria, Cerquido, Estorãos a que se juntavam de outras freguesias do concelho de Ponte de Lima.

         Recordo-me de os ver instalados junto à berma da estrada que atravessa o Largo, na placa onde agora está o chafariz sem água, em número variável que poderia atingir a meia dúzia. Traziam o mel em recipientes de latão e em frascos, que às vezes colocavam em cima de cortiços redondos (eram mesmo feitos com a cortiça natural) e sob uma pequena banca usavam por um prato com mel sobre uma toalha branca para o freguês saborear a qualidade e escolher o preferido.



         Muitas estórias se passaram com a venda do mel nas condições acima descritas e, as mais comuns eram protagonizadas pelos rapazes (eram tantos, nessas épocas...) os quais, trazendo da padaria Dantas um trigo pelo preço de 2,5 tostões (um cêntimo pouco mais ou menos da moeda atual), outras vezes oferecido pela senhora Maria a dona da padaria e, com ele no bolso das calças aproximavam-se das vendedoras (eram quase sempre mulheres) para, à sucapa e de forma ladina o deixarem cair no prato das provas e, logo, num ápice besuntá-lo de mel indo a correr saboreá-lo longe dali, repetindo "a graça" mas já com a vendedora bem avisada.

         Já adultos, faziam-se  "vaquinhas", isto é, dividia-se o custo do mel pelo grupo  e, na Tia Brígida ou na Mariana, "limpávamos" um litro do douradinho e macio néctar da abelhas bem embebido em pedaços de broa quente ou bocados de trigo e saciava-se o apetite até ao Natal do ano seguinte.

         Fui hoje à feira atraído pelo curiosidade de ver se lá alguém tinha aparecido a vender mel teimoso em preservar a tradição. Não estava um que fosse! O tempore o mores.

         Sim, talvez tenha sido pela ação das vespas asiáticas. É um facto a devastação de inúmeras colmeias nesta região pelas asiáticas assassinas de há dois anos para cá. Mas, também, é causa bastante o cada vez menor número de apicultores dedicados à indústria do mel doméstico.

         Já não há mel na "Feira do Mel", em Lanheses! 


Remígio Costa
Texto e fotos
         

          


        

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