sábado, 19 de abril de 2014

REVISITAR A TRADIÇÃO PASCAL DE LANHESES.

                                                                2012


      A PÁSCOA NA TRADIÇÃO DE LANHESES


Depois da festa natalícia, é a da Páscoa que maior relevância merece no contexto da tradição religiosa da comunidade lanhesense. É certo que já não é atualmente o que era há tempos atrás, seja na intensidade com que é vivida na sua essência cristã e católica, como na exuberância das atitudes que a caracterizaram, sobretudo, a partir dos anos em que se iniciou o surto migratório massivo da população da freguesia.

A Páscoa de outrora agitava de um modo muito intenso o torpor dos duros meses de inverno a que as famílias estiveram sujeitas e que acabava de terminar, sendo a partir desse momento motivo de conversas e planos a cumprir. Havia que cuidar de reparações e da caiação das casas, engordar o cabrito para o jantar da Páscoa, regularizar as obrigações paroquiais , comprar cadeiras novas e uma peça de mobília na feira em Ponte de Lima, pôr a arejar roupas de vestir e toalha de receber a Cruz e cobertores das camas, preparar-se para o confesso e, até determinada altura, “ir à desobriga”, isto é, poder ser interrogado pelo pároco da freguesia sobre o estado em que se mantinham os seus conhecimentos sobre a doutrina da Igreja, numa reunião conjunta dos avaliados. Ninguém se atrevia a submeter-se ao “exame” sem saber, na ponta de língua tudo que aprendera  na catequese se não quisesse passar por uma vergonha vexante.

Na Semana Santa, nas casas que se dispunham a abrir as portas ao Compasso, instalava-se um reboliço, dos grandes: móveis deslocados sem critério, chão de soalho esfregado de joelhos a escova de piaçaba e sabão rosa, cortinas retiradas para lavar no tanque, jarras compostas com novas flores e vasos novos para outras, objetos deslocados para lugares inabituais, fazer provisão de comida para os vivos, certificar-se de que as galinhas puseram as ovos necessários para consumo da casa e para colocar no prato em cima da mesa da sala onde viriam a ser recolhidos pelas acompanhantes do Compasso, prover que não faltasse a garrafa de “vinho fino” "Três Velhotes" e as bolachas para as visitas, a caneca do verde tinto ou branco, as tijelas onde ele crepitava, uns trocados para o miúdo da bolsinha de cor roxa  e, impreterivelmente, e mais modernamente,  os sobrescritos devolvidos com um valor secreto dentro, um para o pároco residente outro destinado ao mordomo da Cruz.

As jovens raparigas e os rapazes pensavam nas costureiras e nos alfaiates, na escolha do tecido e na fazenda  para o vestido e fato a estrear comprados atempadamente, ir ao alfaiate tomar medidas e provar duas ou mais vezes,ao mesmo tempo que se iam avaliando reciprocamente à socapa com vista a entendimentos futuros, nos encontros que ocorriam nos dias santos antecedentes. Era certo que muitos iriam falar-se no Dia de Páscoa e encetar namoro e, infeliz daquela ou daquele, que, no final da bênção na Igreja no encerramento da visita, não tivesse ido para casa acompanhado do par escolhido.

Os mais novinhos não dormiam na semana da Páscoa, ansiosos e expectantes com as emoções que esperavam experimentar e, mal despontava o dia, estavam a caminho da Igreja para aguardar a saída da comitiva pascal para a visita. Seguiam atrás da comitiva e, dentro ou fora das casas onde a visita decorria,  disputavam em bulhas rijas as amêndoas e rebuçados que alguém os arremessava por cima das suas cabeças.

Nos novos tempos já pouco é igual ao que foi outrora no aspeto mais mundano e social da festa pascal. Alguma coisa se mantém ainda na traição lanhesense sendo certo que a saída do Compasso se mantém, como então. Porém, são cada vez menos as portas que se abrem para O receber e, ao inverso do que era natural e prática inalienável da maior parte das famílias há anos atrás, são já muito poucas as que voltam expressamente a esta terra para aqui viver em comum a Ressurreição de Cristo, crescendo  progressivamente o número daquelas que aproveita esta quadra para passar férias noutras paragens.

Hoje, poucos compreenderiam que houve tempos em que se discutiu passar para três, em vez dos dois que continuam a praticar-se,  os dias necessários para fazer, aqui em Lanheses, a visita pascal, que, hoje, sem alguma aflição se poderá realizar em apenas um.

Sinal dos tempos. 

É a vida.



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