terça-feira, 8 de dezembro de 2015

CONVENTO DE SÃO FRANCISCO DO MONTE (RUÍNAS DO) EM VIANA DO CASTELO.

 


À DESCOBERTA DE UM TESOURO EM AVENTURA AO ESTILO DE "INDIANA JONES."


Convento de S. Francisco do Monte (ruínas), em Viana do Castelo.

                

Já ouvia falar do Convento de S. Francisco do Monte no tempo da minha breve e mal sucedida passagem pelos bancos do liceu no final dos anos quarenta do século passado, mas não tenho a certeza de então lá ter estado integrado numa eventual visita de estudo. As referências que depois fui conhecendo ao longo dos anos sobre a existência de um convento escondido algures na encosta arborizada do Monte de Santa Luzia a norte da cidade de Viana do Castelo, fez nascer em mim um mito que alimentei e cresceu ao longo dos anos e que ansiava conhecer e desvendar.

O estímulo irrecusável veio de uma reportagem publicada no semanário vianense a “A Aurora do Lima”, decano dos jornais portugueses editados no continente, em 22 de Outubro findo e, a decisão de ir ao encontro de uma fascinante aventura em busca do misterioso tesouro escondido como nos filmes de Indiana Jones, fez com que calasse em mim os avisados conselhos da prudência pelo risco que continha em fazê-lo sozinho e parti para a descoberta do antigo abrigo dos frades franciscanos.

Iniciei a subida pela encosta nascente da montanha a partir do estádio com o nome da maratonista campeã Manuela Machado, localizado na freguesia da Meadela, numa esplendorosa manhã de sol brilhante com o céu limpo e azul de anil. Guiado pela intuição, porque não tinha referências exactas sobre a localização do mosteiro, caminhei entre pinheiros bravos e penedos a esmo da encosta em declive escassas centenas de metros até chegar a um caminho rural. Alguns metros andados, entrei numa espessa vereda feita de ramos das árvores baixas e de chão atapetado de folhas e, um pouco à frente, decidi voltar à esquerda num carreiro ainda mais apertado; logo ali, estava a ver um cruzeiro levantado ao lado de um caminho feito em calçada românica, referências que me tranquilizaram quanto à incerteza de ter seguido a boa rota. Expectante, percorri um troço escasso sobre as pedras irregulares da via empedrada, para, após ter contornado mais à frente um ligeiro desvio à esquerda avistei, ao alcance de um olhar ávido de novidade, o pórtico da entrada do Convento de S. Francisco do Monte.



Junto ao portão com grade de vergas de aço demorei alguns instantes na avaliação da estrutura, a qual, ao contrário do que em seguida pude constatar no interior, possui ainda um grau animador de recuperação. Não muito, mas ainda incentivante. A ladear o arco de volta perfeita da entrada, duas colunas de fustes lisos e com capitéis clássicos de linhas simétricas, suportam um remate com três estátuas estando ao centro, em plano mais elevado, a imagem de S. Francisco tendo, do seu lado esquerdo, S. Pedro de Alcântara com o globo terrestre (?) e, à sua direita, Santo António com uma figura de menino nos braços, e, por baixo, a cabeça de um anjo. À vista desarmada, as figuras não aparentam degradação acentuada, com excepção da de São Francisco, com ambos os braços decepadas pelo cotovelo.


Um leigo como eu em matéria de conhecimento arqueológico, mesmo que curioso e interessado, dificilmente saberá reconstituir a estrutura original do Convento se o não tiver conhecido localmente até meados do século passado, momento a partir do qual a degradação se acelerou e atingiu um estado de quase completa destruição. Restam as paredes cobertas de silvas, eras e musgo, nichos com indícios de painéis com imagens pintadas, mísulas e duas lajes de sepultura com gravações diluídas, símbolos em pedra incrustrados  nas paredes, pias de utilidade doméstica. Pelo chão, algum lixo de garrafas e papéis e indícios de cinzas de fogueiras. Ervas daninhas e mais silvas.



O claustro é de pequenas dimensões, todavia, bastante atraente. Tem ainda quase todas as colunas em pé e não extremamente deterioradas. O edifício principal à entrada era apenas de um piso embora no local, onde julgo ter sido a capela exista, em plano superior, um espaço que terá sido o coro ao qual se acedia por uma escada em pedra. Tem, à vista, parte das vigas que suportavam o chão.
A cozinha reconhece-se sem esforço pela lareira e chaminé que dela sai e por outros mais pormenores relativos ao seu funcionamento. Tem saída para o logradouro e espaço envolvente cultivável, com algumas árvores de fruto e, segundo o registo de alguns, se criavam também ervas com qualidades terapêuticas. No exterior e do lado oriental, conserva-se ainda um nicho embutido no muro da cerca que não soube identificar. Todo o cenário do local reúne condições suficientes para inspirar um cineasta em cenas de um filme de mistério ou saga de actos esotéricos de seitas com rituais extravagantes e cheios de mistério.
Embora com cinco séculos de existência, foi edificado em 1392, o Convento de São Francisco do Monte é desconhecido para boa parte da população vianense não obstante estar à curta distância de menos de uma légua do centro da cidade, logo a seguir à Abelheira quando começa a mata florestal de Santa Maria Maior, na montanha de Santa Luzia. Há referências que o apontam como o primeiro edifício conventual da região alto-minhota sendo o terceiro fundado em Portugal pela Ordem Franciscana. No ano de 1580, foi saqueado por soldados que andavam no encalço de D. António Prior do Crato, fugitivo que se alojou numa casa situada no caroço do velho burgo vianês, na rua com aquele nome. Na sequência da Convenção de Évora Monte e da reestruturação das Ordens religiosas iniciada no reinado de D. José I pelo ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, o ministro da Justiça Joaquim António da Aguiar fez publicar em 30.05.1834 um decreto declarando extintos os conventos e mosteiros e fez reverter para a Fazenda Pública a sua posse do Convento de São Francisco, passando os frades, em 1625, para o Convento de Santo António dos Capuchos, em Viana do Castelo.

A Igreja do Convento foi erigida em 1736 a mando de Sebastião Pinto Robim Sotto Maior. Em 1834, após derrotados os miguelistas, os liberais esvaziaram-no do seu recheio, expropiaram-no e colocaram-no à venda em hasta pública, passando a pertencer ao visconde da Carreira, antepassado do cineasta Abi Feijó, com vista a criar uma exploração agrícola. Em 1837 deixou de ter ocupação permanente. A degradação acentuou-se a partir da segunda metade do século XX tendo acabado também nessa época a realização de quaisquer actos religiosos.
Em 2002, foi aberto no Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arquiológico um processo com vista à sua classificação como monumento de interesse público, o qual viria a ser declarado improcedente em 2013, justificado pela acentuada degradação que apresentava.
Estando na posse de Rui Feijó, último proprietário civil do Convento, foi por ele doado à Santa Casa de Misericórdia de Viana do Castelo, que, por sua lado o viria a vender em 2001 pela quantia de duzentos e cinquenta mil euros e, posteriormente, mais cinquenta mil, pela aquisição de pequenas parcelas adjacentes a outros confrontantes, ao Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC).


O custo total de requalificação deverá ultrapassar os dez milhões de euros, a qual se tornaria viável executar mais rapidamente com fundos europeus, muito difíceis de conseguir. O presidente do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Dr. Rui Teixeira, à guarda de quem está parte do espólio encontrado em escavações não concluídas, tem em vista a criação no local de estruturas destinadas à formação científica dos estudantes do ensino politécnico e alojamento, mas não é a única sugestão existente. Um delas, o aproveitamento turístico a acionar a curto prazo. A sociedade civil está a mobilizar-se tendo sido criado um movimento liderado pelo advogado Paulo Vilaverde, com a sigla Vamos Recuperar o Convento de São Francisco do Monte, que reúne já mais de um milhar de aderentes, para, em conjunto com a edilidade vianense e o Instituto Politécnico, promover e despertar a atenção para o valor histórico e patrimonial do antigo Convento e, bem assim, provar a relevância e consequentes efeitos benéficos para esta região que constituiria a sua reabilitação nas vertentes cultural, económica e também turística.

São cinco séculos de História a preservar. Nenhum povo sobrevive se desprezar a sua cultura e o património próprio que a atesta e a não garante às gerações futuras. Viana do Castelo, a nossa Região, precisam do Convento de São Francisco do Monte. Não devemos (não podemos) abandoná-lo.

2015, Dezembro.
Fotos doLethes
Remígio Costa
(Consultados a Wikipédia e o jornal a “A Aurora do Lima)
  
 PORMENORES DO CONVENTO EM REGISTO                         FOTOGRÁFICO
















































































3 comentários:

  1. Incrivel o estado em que se encontra o convento.Felizmente o caesso é muito difícil e não permite veículos automóveis, caso contrario já tudo teria desaparecido.

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  2. Boa noite Sr. Remígio Costa. Sou de Avintes (VN Gaia) e gosto bastante de Viana do Castelo. Apesar de nunca ter visitado este local, já é para mim de visita obrigatória, e hei-de lá ir de bicicleta! Dói ver algo assim tão importante, que, como sublinhou, tem 5 séculos, abandonado e às mãos do vandalismo comum. Não quero nem pensar no que seria se um coleccionador privado se lembrasse de roubar o convento de certas coisas valiosas que lá tem. Esta foi, até agora a melhor descrição do local que já li. Obrigado!

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  3. O Convento pertence atualmente ao Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC), o qual tem projeto para futura requalificação como centro de estudo e investigação. A recuperação importa em alguns milhões dado o estado em que se encontra e o que foi roubado não é recuperável. É lamentável que não se reúnam vontades (e entidades) para reerguer um jóia desaproveitada, num local magnífico no sopé da montanha de Santa Luzia perto do burgo citadino. E que, entretanto, não seja aberto ao público mesmo no atual estado com vivitas devidamente controladas. Já lá voltei com os meus filhos e netos para que conheçam toda a História da terra onde nasceram.

    Remígio Costa

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