segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ESTÓRIAS DE ENCONTROS DA VIDA REAL (III)



 (Conclusão)

A RODA QUEBRADA-III
(CONTO)


                  Quando a jovem o apresentou aos familiares progenitores, nem queria acreditar que, na sua frente estava o padeiro que um dia, era ele ainda um miúdo incauto e despreocupado, lhe desfizera em duas a sua roda de brincadeira, mal tinha acabado de ser feita. E, pior do que isso, se tinha divertido com o facto soltando uma gargalhada a troçar da sua desilusão!


                  Mal refeito da surpresa, voltou a si quando a voz da sua acompanhante  pronunciou  o seu nome para o apresentar aos pais, tendo correspondido ao gesto do aperto da mão, que lhe era estendida, do malvado e insensível padeiro de que nunca se esquecera, sem lhe notar vislumbre de sentimento que valesse o perdão do desgosto antigo de que ele fora o causador. E, a promessa que, então, a si próprio fizera de o fazer pagar com a bicicleta a maldade de que sofrera espevitou-se, de repente, na sua memória onde continuava  o  espaço em branco onde tencionava escrever o epílogo da estória.



                   Museu do Pão, Seia (Serra da Estrela).

                  Prudentemente, achou por bem não aludir ao episódio ocorrido no passado entre ambos e agradou-lhe pensar que o pai da moça por quem se tinha deixado enfeitiçar já o teria até esquecido. E, quando reparou na bicicleta em que o antigo padeiro se deslocava com o saco de pão na altura do acidente que lhe provocou a perda da roda, um impercetível e enigmático  sorriso aflorou nos seus lábios como se, naquele momento, lhe tivesse ocorrido um pensamento cuja consumação há muito desejava…


                   Nos dias que trouxe consigo para o gozo das férias em Portugal, encontraram-se a sós em locais de convívio mais quatro vezes, na última das quais se comprometeram em firmar um relação de namoro com vista à união pelo casamento, a celebrar na igreja onde ambos receberam o batismo. Volveu, de novo à França, com a promessa de regressar nos próximos três meses e, ainda antes de terminar o período mutuamente aceite, estava de volta como fora combinado e ambos desejavam. 

                  Ficaram noivos e, seis meses depois, estavam casados. Seguiram em caravana automóvel para a quinta onde estava marcada a boda e, no fim do banquete e do baile que se seguiu, ia longa a noite quando os nubentes rumaram à casa nova que o noivo tinha mandado construir. Lá chegados, ao entrar no quarto do leito de núpcias com a bela filha do padeiro, tinha junto da cama uma bicicleta, que, sendo em tudo igual, não era outra senão a do pai da sua noiva que ele montava e fizera passar por cima do primeiro grande amor que já possuíra. 
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                 O que se passou depois é segredo de alcova que, manda o decoro e o cavalheirismo, não pode nem deve ser violado. Mas, para os que estavam a imaginar um final diferente para a estória aqui contada, sempre divulgarei que o casal, passados que estão já alguns anos sobre os sucessos aqui descritos, continua muito feliz e a família que formaram possui sete maravilhosas bicicletas… sem contar com a do avô materno!




                                                            FIM



Remígio Costa/Fevereiro de 2013.


            

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