segunda-feira, 8 de maio de 2017

VEM AÍ A FESTA EM HONRA DE SANTO ANTÃO.


 
             Santo Antão abre o ano das celebrações festivas religioso-profanas na nossa freguesia, garantindo a continuidade de uma tradição da comunidade lanhesense que votava arreigada veneração ao padroeiro dos animais domésticos. A evolução dos hábitos e costumes em decurso na sociedade, refletida na redução e mecanização da agricultura mini fundiária prevalecente na freguesia, a par da escassez ou mesmo extinção de gado doméstico que dava carácter genuíno à celebração e a sua razão de existir, retiraram o simbolismo autêntico da invocação do orago fundador do monaquismo a favor da proteção dos animais. 

          A festa que decorre na capelinha de Santo Antão que deu o nome ao lugar, um outeiro com vista alargada a trezentos e sessenta graus, não tem atualmente as dezenas de cabeças de animais parceiros dos lavradores de outrora, que se aglomeravam no recinto da festa para receber a benção especial, no decorrer da Missa e após o sermão "a cargo de orador sacro" como constava (impreterivelmente) do respetivo programa. Vindos em romaria dos diferentes lugares da freguesia e localidades vizinhas, limpinhos, luzidios de pelo e hastes e enfeitados com flores e ramos verdes, conduzidos por moças vestidas com fatos regionais ou homens trajados "à lavrador", ao som de concertinas e cantares, conferiam uma animação e genuinidade popular típica e castiça ao recinto, onde a banda de música alinhada no coreto levantado sob a copa de um sobreiro executava temas populares em voga.

     As arrematações dos tabuleiros e outros bens domésticos, incluindo animais, eram muito disputados, especialmente pelos jovens namorados no leilão da oferta da moça que pretendiam conquistar ou espicaçar e fazer sofrer o rapaz com quem ela estava comprometida. Depois, juntavam-se em grupos para comer os produtos da oferta, quase sempre de fabrico caseiro, que preenchiam os tabuleiros, ou refastelavam-se de cabrito preparado pela "tia Nina" regado a tinto carrascão de "mastigar".

    Não  obstante as acentuadas diferenças acima apontadas, a celebração mantém o cariz de religiosidade adequada à dignidade do orago, mantendo intocáveis os atos representados pela Via Sacra, Missas e a Procissão da festa, que noutros tempos decorria na quinta feira da Ascenção, quarenta das após a celebração da Páscoa.

     Ah. E mantém-se (obviamente!) o festival do "sarapatel" e as arrobas bastantes de "cabrito à Santo Antão" que se degustaria ainda com mais paladar e satisfação se consagrasse o nome de quem lhe deu vida e fama: "tia Nina".

    Graças a um grupo de pessoas de boa vontade, a festa de Santo Antão foi recuperada depois de alguns anos de interrução. Levantar e garantir a continuidade dos bens patrimoniais da nossa identidade e cultura, é uma atitude louvável que a comunidade tem o dever de reconhecer e apoiar.



        

 

Remígio Costa

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