segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO (1800-1875) - Recordando uma composição popular do poeta.



                                                              OS TREZE ANOS
( Cantilena)

Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

Já sou mulherzinha; / Já trago sombreiro;
Já bailo ao domingo / Co’as mais no terreiro.

Já não sou Anita, / Como era primeiro,
Sou a senhora Ana, / Que mora no outeiro.

Nos serões já canto, / Nas feiras já feiro,
Já não me dá beijos / Qualquer passageiro.

Quando levo as patas, / E as deito ao ribeiro,
Olho tudo à roda / De cima do outeiro,

E só se não vejo / Ninguém pelo arneiro,
Me banho co’as patas / Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas / Rostinho trigueiro,
Que mata d’amores / A muito vaqueiro.

Miro-me olhos pretos / E um riso fagueiro,
Que diz a cantiga / Que são cativeiro.

Em tudo, madrinha, / Já por derradeiro
Me vejo mui outra / Da que era primeiro.

O meu gibão largo / D’arminho e cordeiro
Já o dei à neta / Do Brás cabaneiro,

Dizendo-lhe – Toma / Gibão domingueiro,
D’ilhoses de prata, / D’arminho e cordeiro.

A mim já me aperta, / E a ti te é laceiro;
Tu brincas co’as outras, / E eu danço em terreiro.

Já sou mulherzinha, / Já trago sombreiro;
Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita, / Sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

Não quero o sargento, / Que é muito guerreiro,
De barbas mui feras, / E olhar sobranceiro.

O mineiro é velho; / Não quero o mineiro:
Mais valem treze anos / Que todo o dinheiro.

Tão pouco me agrado / Do pobre moleiro,
Que vive na azenha / Como um prisioneiro.

Marido pretendo / De humor galhofeiro,
Que viva por festas, / Que brilhe em terreiro.

Que em ele assomando / Co’o tamborileiro,
Logo se alvorote / O lugar inteiro.

Que todos acorram / Por vê-lo primeiro;
E todas perguntem / Se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele, / Romeira e romeiro,
Vivendo de bodas, / Bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos! / Ai céu verdadeiro!
Ai Páscoa florida, / Que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha, / De Deus vos requeiro;
                              Casai-me hoje mesmo / Com Pedro Gaiteiro

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