sexta-feira, 22 de abril de 2016

RUSGAS DE S. JOÃO D'ARGA.

             
Drª Ana Maria Craveiro Malheiro Pereira da Castro
Licª em História (UC)
Professora jubilada do ensino secundário com exercício docente em vários estabelecimentos de ensino, designadamente no Externato liceal e Escola EB 2,3/S, em Lanheses, onde concluiu a carreira.
Tem residência nesta freguesia na Quinta de S. Filipe a qual pertenceu ao seu pai Capitão Gaspar M. Pereira de Castro, emérita figura da freguesia de Lanheses (Viana do Castelo). 
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                   Quando era miúda íamos, a minha irmã (Maria Clara) e eu para os bancos fora de portas (1) ver os grupos (2) que se dirigiam para o São João d'Arga. Primeiro a pé e sempre a rezar ou a cantar (*) e mais tarde nos fanicos do João Matias e do Rios. Chamavam fanicos às camionetas sem horário fixo que levavam as pessoas para as festas que ficavam um pouco longe. Levavam um grupo deixavam-no no lugar desejado e vinham buscar outro, até acabarem as pessoas que se queriam deslocar. Passavam ao relento, no cimo da serra, a noite e segundo ouvia dizer davam uma esmola maior ao São João e outra mais pequena ao diabo para que não os tentasse (3), depois do número certo de voltas ao redor da capela. Diziam também que os grupos idos deste lado da Serra d'Arga trocavam as cantigas com os vindos do lado de Âncora (a norte).

                 As mulheres de São Lourenço lembro-me de as ver quando vinham à feira de Lanheses. Eram em geral altas e fortes usavam saia de riscas pretas e brancas sobre o comprido quase a tapar o tornozelo, chambrecas (blusas) de chita por fora da saia. Tinham um elástico na cinta que lhes fazia um folho. As meias eram feitas com lã de ovelha e não tinham pé e usam socos grossos feitos de pau de amieiro. O que chamava mais a atenção era o seu penteado. A toda à volta da cara faziam com o cabelo pequenos caracóis que segundo diziam eram enrolados com mel ou azeite para melhor os fixar. Os lenços atados atrás com um nó eram também escuros como as saias.

(1) Na entrada principal da Quinta de S. Filipe existem embutidos no muro dois bancos, um de cada lado do portão de ferro (atualmente fora do serviço normal)  com painéis de azulejos muito interessantes mau grado se notarem sinais de alguma degradação. Não raro, casais de jovens ocupavam-nos, aos domingos, para namorarem.
(2) Rusgas de mulheres e homens que de se dirigiam a pé para São João d'Arga para participarem na romaria.
(3) É uma tradição dos romeiros que ainda se mantém. Ao diabo, as moedas são as de cor castanha.
(*) Alguns, para cumprirem promessa, caminhavam em silêncio. Nem sempre conseguiam manter a boca fechada e no ano seguinte voltavam a tentar. À boca pequena, as más línguas diziam que o faziam de propósito para terem um pretexto para voltar...
(Notas do gestor do blogue).

                

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