quarta-feira, 27 de abril de 2016

O TABULEIRO DA NAMORADA MORDOMA



             Jovem mordoma em traje regional


        Nas festas de maior expressão religiosa cristã que se realizam anualmente na nossa freguesia há muitas gerações, são proclamados pelos organizadores, pelo menos uma vez enquanto jovens, mordomas e mordomos do orago festejado. Por vezes, são de novo nomeados nos anos posteriores mas para servir patrono diferente; contudo, há quem por razões pessoais, quiçá promessa a cumprir, queira repetir uma ou mais vezes a mordomia.
 
          Os mordomos ajudam nas operações de montagem do arraial que competem aos festeiros, conduzem aos ombros o andor na procissão onde vai o Santo da correspondente mordomia e dão um contributo monetário para as despesas consoante as posses. E desfilam com as mordomas no cortejo dos tabuleiros. Em tempos recuados, colaboravam no cobrimento das varas de pinheiro das bandeiras e dos coretos improvisados no arraial, ajudando a namorada a atar os ramos de bucho.  As mordomas, por sua vez, para além de coadjuvarem nos arranjos florais e limpeza do altar, encarregam-se nas festas mais solenes de atapetar com figuras desenhadas com flores e serrim ou mesmo sal coloridos, troços do percurso onde irá passar a procissão; porém, o encargo de maior relevo que elas assumiam era o de compor um tabuleiro com variados géneros, comestíveis ou não, para ser arrematado no principal dia da festa.

           Nos tempos mais recentes a apresentação de tabuleiros próprios já não é tão personalizada como se verificava no passado de que divergem porque são agora em maior parte resultado de uma coleta de bens por lugares onde transparece um mal disfarçado espírito competitivo e o valor e a qualidade global da sua composição podem marcar a diferença na hora da licitação.


           Recuando ao tempo onde principia o surto migratório que trouxe um maior desafogo financeiro a uma grande parte das famílias do paupérrimo alto minho,  designadamente aos jovens solteiros à procura de noiva, as prestações das mordomias possuíam particularidades bem distintas das atuais no que diz respeito à variedade e géneros que entravam na constituição dos tabuleiros e à posterior arrematação em “hasta pública”, se é legítima a qualificação de um espontâneo leiloeiro a apregoar um a um os artigos ofertados. Se, nos tempos de agora, se recorre às grandes superfícies para comprar as batatas fritas e o scotch whisky, o bolo de pão de ló, a garrafa de vinho fino ou os enchidos feitos com carne importada, no tempo a que reporto estes leilões não havia outra alternativa senão a de ir buscar ao fumeiro próprio e à salgadeira o presunto e o chouriço caseiros do porco cevado de dois anos a comer lavadura e milho, encher na adega da melhor pipa o garrafão de cinco litros de verde carrascão de três estalos (com a língua, obviamente) e levar à cabeça para o leilão o tabuleiro na esperançosa ansiedade de saber se o namorado mordomo possuía fundos bastantes que cobrissem lances “viciados” ou viesse a sua oferta a ser vencida por golpe malandro e cínico de algum (ainda) encoberto pretendente a “romper a asa” com a dona do tabuleiro já comprometida. Ele, nervoso, suando frio, assistia à licitação do pregoeiro cobrindo com um gesto tímido da mão cada um dos lances surgidos a contar  cada segundo como minuto à espera de ouvir ninguém dá mais uma, ninguém dá mais duas, duas e meia e três! -Uf!, Terminou! -Vai para o namorado da mordoma, aquele penteadinho de gravata de flor e lenço no bolso do casaco.  Depois do transe vivido, o arrematante aliviado por não ter sido “desfeiteado” publicamente por atrevido rival, ficava junto da moça que sorria de satisfeita com o tabuleiro na cabeça sobre a rodilha, seguiam ao encontro da família da mordoma para merendar o conteúdo do tabuleiro à sombra de uma ramada ou árvore frondosa existentes no recinto da festa.

                                          

            Ao cair da noite, o rapaz acompanhava a namorada mordoma caminhando a par pela estrada até à casa dos pais com a sol a pôr-se, ela, sobraçando o tabuleiro com a toalha branca de linho a cobrir o que de comer restara, ele, agora impante e chieirento todo sorrisos e ar de triunfador levando na mão o foguete de seis cartuchos a que tinha direito pela tradição na qualidade de mordomo, para queimar antes de se despedir da rapariga já quando a mãe, de dentro de casa, a chamara por três vezes.


       Mordomas de Lanheses em 2015 - Festa do Senhor do Cruzeiro e das Necessidades


Fotos: arquivo doLethes (2015)
Abril/2016
Remígio Costa
     

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