Resiste à lei da Natureza o apagamento total da ancestral Fonte do Crelo, pertencente ao Lugar da Corredoura, da Freguesia de Lanheses, situada no fundo da encosta virada a nascente, a cerca de trezentos metros abaixo da estrada municipal e da urbe comunitária. O acesso é feito por um caminho apertado e irregular no piso a carecer de limpeza de arbustos e mato que encurtam a largura dificultando a passagem de viaturas ainda que de tamanho reduzido. A meip do caminho há uma única casa habitada em todo o trajeto.
Para quem foi durante anos habitante corredourense e inúmeras vezes desceu e subiu a rampa de acesso à Fonte do Crelo, fica desoladamente chocado de tristeza pelo estado de abandono a que o local chegou; nem a frente da pedra semi-redonda da fonte e o bebedouro de chafurdo ao lado, nem a porta da mina e o tanque quase submerso estão visíveis, tal como a água que se ouve e sente sob os pés a passar por entre o manto de erva alta que cerca e esconde todo o espaço da fonte. Os tempos mudaram e com ele a alteração da vida corrente na Corredoura. A água canalizada chegou gradativamente aos domicílios, a fonte manteve o caudal mas a água continuou desaproveitada para consumo doméstico e na redução do uso do tanque, na rega dos lavradios que deixaram de produzir.
Veio-me por momentos à memória o que foi para mim a Fonte do Crelo nos primeiros anos da minha infância. Recordei quando ia encher o cântaro de barro para abastecer os de casa e as panelas, e depois subir o caminho com ele cheio na cabeça, ainda que nem sempre chegasse com a água porque me estatelava no chão e desfazia em cacos o cântaro, ou de quando descia o caminho levando à frente de mim uma pata-mãe com uma dúzia de filhotes para se banharem e recrearem na água da represa enquanto eu fumava o meu cigarrito proibido, ou esperava na fila para chegar a minha vez de encher a cantarinha quando a água no verão era um fio e os utilizadores muitos, ou conduzia um par de vacas leiteiras para casa depois de lhes dar de beber na fonte.
A minha vontade de visitar um sítio por onde andei na juventude e que muito bem conheci e amei, nada tem a ver com a falta de limpeza do local, e se é ou não dipensável o arranjo à volta da fonte já que não serve a comunidade porque a sua utilidade pública deixou de ser relevante, tal como noutros pontos da Freguesia onde há situações idênticas e não deixam de ser do conhecimento de quem de direito. Depois, nem o caminho da fonte é muito utilizado sendo raras as pessoas que passam por ali quando têm propriedades por perto. O Turismo segue outros rumos.
Remígio Costa
2026.06.22
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