sábado, 20 de janeiro de 2018

POUCO ANIMADA (AINDA) A SAFRA DA LAMPREIA EM LANHESES (Viana do Castelo)





          Os pescadores amadores de lampreias no rio Lima que se movimentam nas suas típicas barquinhas numa zona do rio limitada pela ponte de Lanheses e os contornos ocidentais da freguesia de Fontão, do concelho de Ponte de Lima, alimentavam a esperança de que a pesca no ano corrente fosse mais produtiva em quantidade daquela que havia sido na safra do ano anterior. Seguindo um velho princípio empírico dos antigos pescadores, eles crêem que quando há chuva com engrossamento do caudal do rio, crescerá a fartura do estimado peixe. Para já, ao que julgo entender das suas (in)confidências, o esguio, longilíneo e viscoso invertebrado animal criado no salgado mar "dos Sargaços" a milhares de quilómetros de distância, com data de nascimento entre três a cinco anos antes na água doce dos pontos mais altos dos rios a norte do país, são ainda em número minguado para a ambição e gáudio dos expectantes pescadores.

   Terá sido (ainda) insuficiente a chuva que este inverno aliviou no Vale do Lima para incentivar a início da reprodutora até ao sítio ajustado para o cumprimento do ciclo da proliferação da espécie? Ou outras causas menos naturais estão a contribuir para a diminuição gradual dos embriões que garantem a continuidade da estimada e ansiada visitante?



   Desconhecendo a existência de estudos credenciados e recentes sobre a vida e evolução desta espécie, bem como se a confirmação fidedigna de uma  (in)provável escassez notada na zona acima referida é (também) sentida noutros rios onde a lampreia acede, designadamente nos rios Minho e Cávado, não será de excluir que, a verificar-se a diminuição do peixe ela se deverá à ação da pesca profissional com o uso de redes a jusante da ponte de Lanheses até montante da de Viana do Castelo, ao número de pescadores amadores que operam na circunscrição para a qual obtiveram licença, à eventual dificuldade da transposição pelas fêmeas do açude criado em Ponte de Lima para atringirem o melhor local da desova, não excluindo ainda os efeitos nefasto da crescente poluição dos oceanos e o aumento da temperatura cientificamente provado dos mares.


      Das hipóteses consideradas acima, acrescento aquela que mais poderá contribuir para esclarecer o fenómeno: o consumo crescente do famoso pitéu. Com efeito, a lampreia é cada vez mais um produto inscrito no cardápio dos restaurantes portugueses na época sazonal e até fora dela, e entra regularmente na dieta de muitas famílias do litoral como (também) do interior. Multiplicam-se as "festas da lampreia" como cogumelos nos outeiros, organizam-se excursões às localidades onde a fama do produto é aliciante, apura-se e cresce a criatividade na preparação da iguaria, amplia-se o consumo por todo o ano e não se exagera no desincentivo da acessibilidade popular ao consumo mantendo a estabilidade do preço razoável fora do início da safra. 


     Sejamos otimistas e confiemos que o "ratting" da pescaria saia da crise.Já bastava a restrição à safra da sardinha para arrelia e prejuízo dos pescadores para agora se juntar a da lampreia para desconsolo dos (muitos) apreciadores. E se a solução está na chuva, que as nuvens se abram e transborde o rio de tantas lampreias que até à mão se deixem apanhar.




 
Fotos: doLethes
Remígio Costa     

  

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