Éramos cinco: o Rogério Agra e o filho Carlos, o Rogério Vale, o Vieitos (empregado na bomba de combustíveis) e eu Remígio. Saímos do Largo da Feira pelas três horas da tarde de sábado, dia 23 de maio maio, no Citroen ainda pouco rodado do Rogério Agra, levando a mala abarrotada de produtos alimentares que poderíamos ter necessidade de consumir no decorrer da viagem (que pouco gastámos). Atravessamos a Espanha e chegamos à entrada da França pelas três horas da tarde do domingo, seguindo em direção a Pontault-Combault onde morava o meu irmão Benjamim e a esposa, na situação de emigrantes. Aceitaram o nosso acolhimento sem constrangimentos, deram-nos pousio na noite da chegada e na de segunda-feira, tempo que aproveitamos para dar uma volta por Paris e arranjo do escape do automóvel em que seguíamos porque tinha rompido.
Saímos de Paris na terça-feira da manhã e seguimos o itinerário para a Alemanha; arranjamos dormida em hotel a vinte quilómetos de Munique. Na madrugada de quarta-feira estávamos a atravessar a capital alemã e, sem parar, chegamos à rota que nos levaria à fronteira de Salzburgo. Neste trajeto, fomos ultrapassados na autoestrada por um automóvel descapotável conduzido por um individuo que presumimos ser alemão, o qual, gesticolava furioso de braço erguido insinuando que o Rogério conduzia embriagado porque o nosso carro ia muito chegado à linha do meio da via, situação que admitimos poder ser objeto de denúncia a uma brigada policial, o que, para nosso descanso, não aconteceu. Já em território austríaco avistamos à nossa frente um carro de marca Mercedes, conduzido pelo então Presidente da Câmara de Viana do Castelo e nosso particular amigo, Lucínio Araujo, levando ao seu lado o um seu conterrâmeo adepto portista emigrante, também natural da freguesia de Meixedo. .
Fizemos um grupo na capital austríaca dando uns passos para conhecimento do local e, cerca das doze horas, fomos almoçar numa estreita sala onde estava apenas um velhote e um cão preto com aspeto pacífico. Vieram uns bifes, sobremesas e bebidas. Nem muito, nem pouco, antes pelo contrário.
Eram quatro da tarde estacionamos no Parque o confortável Citroen, viemos para junto do Estádio do Prater, onde a disputa da Taça dos Campeões Europeus iria decorrer. Demos uma volta ao Estádio levando a tarja "HAVEMOS DE IR A VIA(E)A", pintada pelo escultor e artista professor no Liceu de Viana, Manuel Vieira (já falecido) onde ambos trabalhávamos e criámos amizade; eramos cinco a pegar na tarja a passar com ela em frente de uma fileira sentada de adeptos do Bayern de Munique, a observar-nos silenciados como se fossem leões numa selva a perscrutar as rezes para decidir da sua sorte. Mas não nos incomodaram, graças a Deus.
O jogo foi uma loucura. Não que a minha convicção fosse a vitória, porque, sabia, o Bayern tinha mais trunfos do que o FC do Porto para vencer. Mas a realidade foi outra; o Futebol Clube do Porto, depois de ter sofrido na primeira parte um golo,sem resposta, na segunda metade o fenomenal Rabath Madjer estabeleceu o empate numa jogada em que utilizou o calcanhar num golpe de sonho que jamais se apagou da minha memória e correu o mundo. O golo do triunfo resultou de um centro magistral do Madjer a meia altura ao segundo poste, com o brasileiro Djair a fuzilar numa entrada de relâmpago a baliza alemã. Depois foi uma ânsia na espera do fim, cada segundo uma hora, cada jogada de ataque do adversário um pesadêlo. O olhar fitava-se no relógio que parecia parado, mas um apito do juiz da partida pôs fim à voragem dos atleta da equipa alemã.
Impossível descrever com fidelidade o que se viveu na bancada onde os portistas eram mais do que noutros lugares do Estádio. Abraços, expressões emocionantes, vivas, cantares, aplausos, bandeiras no ar, acompanhavam as voltas dadas ao redor do relvado de todo o grupo do Clube portista, com o capitão João Pinto a levantar a Taça sem a ceder a qualquer colega ou dirigente.
Já noite, regressávamos ao centro numa fila compacta de automóveis levantando as bandeiras nas janelas e no tejadilho. Um grupo de canalha turbulenta investiu contra o nosso carro com vista a roubar ou deteriorar a viatura. O Rogério invertou o trajeto estacionando numa praça com edifícios que pareciam públlicos pela grandeza e beleza estética. A polícia abordou-nos, recolheram pormenores do assalto, deram instruções que não seguimos. Tínhamos acordado dormir em Viena nessa noite, mas optamos pelo regresso (eram dez horas e trinta da noite) por um itinerário diferente da chegada.
Eram quatro de manhã resolvemos não dormir em Graz, de acordo com todos. Retomamos a viagem por Mónaco, entrámos quarenta quilómetros na Jugoslávia para conhecer a capital, mas voltámos atrás para chegar à fronteira com a Itália. Foi um pagode: o Rogério Vale entabulou com um jovem guarda da fronteira um diálogo em línguas diferentes, tratando da conversão de dinheiro de coleção, terminado com assentimento e graça. Seguimos. Uns quilómetros corridos, parámos na berma da estrada para dormitar. Não deu resultado, recomeçamos a viagem até Nápoles. Entrámos num hotel, arranjamos quartos, tomamos banho, dormimos e comemos lautamente um pequeno almoço. Retomamos a viagem, passamos a Espanha, entramos em Portugal por Valença, jantamos em Vila Nova de Cerveira, chegamos ao Largo da Feira eram dez horas da noite.Oito dias e sete horas entre a ida e a chegada, cansados mas felizes.
Não é fácil incluir e sintetisar num post num texto em que tudo quanto é vivido numa viagem de oito dias em sete países, nem descrever tudo o que se passou e saudou num triunfo brilhante e histórico que o Futebol Clube do Porto obteve pela priemeira vez desde a sua existência. Contudo, se há quem tiver pachorra e vontade de ler e interpretar o que acima escrevi, merece o meu sincero "obrigado".
Entendi evocar a minha vivência futebolística face ao que está a decorrer no Campeonato do Mundo nos EU, Canadá e no México. Entre o presente e o passado não há comparação quanto ao número de Clubes participantes, ao número de jogos da competição, às lotações esgotadas dos estádios, aos gastos astronómicos na despesa, ao impacto mundial que a competição provoca na massa dos apaixonados do jogo da bola.
Quo vadis, futebol?
Remígio Costa
2026.06.24
