quarta-feira, 22 de maio de 2019

A PRIMEIRA FESTA DO ANO EM LANHESES É EM HONRA DO ORAGO DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS

    Nos dois últimos dias do mês de maio em curso e nos dois primeiros de junho seguinte, vai decorrer em Lanheses, Viana do Castelo, a festa em honra do orago dos animais domésticos, Santo Antão Abade, abrindo-se deste modo o ciclo anual das comemorações festivas da freguesia do seu acervo tradicional.

   Aquela manifestação de sentido vincadamente religioso cristão que contém uma componente profana comum à maioria das celebrações festivas que visam homenagear figuras santificadas da Igreja católica, tem raízes que transportam  de um passado longínquo a invocação dos poderes do patrono dos seres domésticos úteis aos donos, Santo Antão, rogando graça que os proteja contra males e doenças nefastos.


  Filho de pais humildes fiéis à doutrina do cristianismo ainda em evolução , Antão nasceu no Egito no início da segunda metade do século III d.C.. Tendo ficado órfão quando tinha apenas vinte anos, tocado pela evocação de um ensinamento bíblico que o impressionou,e tendo-se entregado alguns anos à lavoura, decidiu alienar os bens da herança recebida, e após o casamento da sua única irmã, isolou-se no deserto onde deu início a uma vida de contemplação e oração. Outros seguiram a sua vocação e exemplo e foram viver com ele, formando-se uma comunidade de orientação monástica que se expandiu através da sua influência e santidade.

 Santo Antão Abade mora numa capelinha modesta erguida no Lugar que tem o seu nome na freguesia de Lanheses, num pequeno outeiro com vista de 360º graus. É ali que decorre (decorria...) a concentração dos animais domésticos para a benção especial após a chegada da solene procissão vinda da Igreja paroquial, com a audição de sermão a salientar a vida e obra do orago, bem como o fim do preito que lhe era dedicado.


  Até há algumas décadas atrás, a celebração da festa coincidia com a quinta-feira da Ascensão, "dia da espiga" noutras latitudes, que ocorria quarenta dias após a data da Páscoa. Era dia santificado, e os cristãos católicos abstinham-se, sobretudo, dos trabalhos de campo. Quando se alterou aquela prerrogativa, o evento passou para o domingo seguinte mantendo-se até hoje. 

  A transformação que a vida das comunidades rurais sofreu a partir dos meados do século passado, teve como consequência maior o fim da atividade agrícola tradicional e o desinteresse pela criação da raça bovina que em Lanheses desapareceu; sucedeu-se um período em que se criaram vacarias com animais para a produção de leite, estando todas praticamente extintas.


  Sem animais, a evocação festiva de Santo Antão não faz sentido ainda que possa haver quem, fiel ao orago e à tradição, lá compareça levando dois ou três exemplares caprinos, um ou dois equinos, um ou outro animal de estimação. Pouco, quase nada, comparado com dezenas ou centenas que lá se congregavam vindos de todos os lugares da freguesia, e de outras limítrofes, nos tempos doutrora.  Em romaria, lavados, escovados, nutridos, luzidios de chifres e com cangas ornadas com ramos verdes e flores, levados à soga pela moça vestida à minhota ao som de animada concertina e coros bem timbrados, conferiam à manifestação o caráter distinto da sua promoção e o sentido transcendente subjacente à sua efetiva decorrência.

  Ah! Festa sempre haverá enquanto cabritos morrerem para belo sarapatel manjar!


 








Fotos de arquivo: doLethes
Remígio Costa  

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